Votos de uma boa Páscoa para todos, em especial para os que comigo partilham estes pequenos momentos virtuais. É para mim um privilégio recebê-los neste lugar, sem dia nem hora marcada. Assim se acolhem os amigos.
Permitam-me apenas uma nota de alguém que crê em Cristo ressuscitado. Que saibamos descobrir no exemplo desse Cristo, a verdadeira dimensão da nossa existência e o verdadeiro sentido da vida. Refiro-me ao exemplo, tão somente e apenas, circunscrito à sua dimensão humana e histórica, guardando para mim (e para quem quiser) a divina e transcendente. Uma vez mais boa Páscoa.
O mais novo estava-se a portar mal. Peguei nele e pu-lo ao pé de mim. Perguntou-me se estava de castigo, respondi-lhe que sim. Começou a choramingar e a dizer que não queria estar de castigo. Pediu-me a “pêpê e a fraudinha”, o kit de emergência para as birras e para o sono. Alguns segundos volvidos e já estava a cantarolar qualquer coisa, como se nada se tivesse passado. Vi-o esfregar vigorosamente os olhos com a fralda e perguntei-lhe o que tinha. A resposta veio inesperada – Estou a limpar os olhos que estão cheios de birrinhas! - e sorriu...
Hoje amanheceu com a água a correr pelos pinhais. Uma bátega de água copiosa que fez soltar da terra um cheiro a húmus e a musgo. Respirei fundo e senti a chuva percorrer-me os cabelos, a cara, o tronco, os braços, as pernas, os pés. Imóvel, senti-a. Ouvi-a. Toquei-lhe. Fez romper os primeiros míscaros por entre a caruma molhada que me rodeava, encheu o ribeiro que corria manso, deu de beber às fontes, lavou-me a alma. Deu-me vida. Encheu-me de seiva. Esta é uma bênção que me faz sentir muito mais do que simples pinheiro, faz-me sentir um homem.
Chamo-me Filipe e tenho oito anos. Gosto de jogar ao berlinde. Gosto de jogar às barrocas e ao triângulo, não importa. Se calhar gosto mais de jogar às barrocas. A mãe fez um saquinho de pano para eu guardar os meus preciosos berlindes. É assim que os levo para a escola. O João diz que eles não valem nada, mas para mim valem muito, até porque me divertem. Eu sei que ele diz isso porque quer ficar com eles, como daquela vez em que me convenceu a trocar um carrinho por um pedra polida que dizia ser preciosa. Nessa já não caiu! O que é que eu tenho, deixa cá ver? Tenho pidolas, pirolitos, contra-mundos, esferas e uma leiteira. No total tenho 47 berlindes. Já tive mais mas perdi alguns na escola a jogar contra os outros meninos. Eu gosto mesmo de jogar é com o primo Luís porque ganho-lhe sempre. Quase sempre. Os que eu gosto mais são os contra-mundos, são grandes, de vidro e têm muitas cores. Talvez seja por eu ser da Marinha que é a terra do vidro. Fazem-me sempre lembrar aquela visita de estudo que fizemos à Fabrica Escola onde vi os senhores vidreiros a soprarem o vidro e a fazerem jarras, jarros, taças e muitas outras coisas. Estava lá muito calor. Eu também soprei mas aquilo era muito difícil. Onde é que eu ia? Já sei, nos berlindes, os meus amigos berlindes. Como eu gostava de jogar ao berlinde.
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Não sei porquê (claro que sei!) mas ao recordar a minha infância vem-me à memória esse magnífico Cinema Paradiso e a incontornável música de Ennio Morricone. Maestro, por favor, tenha a bondade de me fazer viajar no tempo.
Penso que não poderia começar de melhor maneira a minha playlist. Chama-se Cantiga de Amor e faz parte do último trabalho dos Rádio Macau, a sair brevemente. Neste caso foi amor à primeira vista. A melodia é simples e a letra inocente. Só encontro um adjectivo: soberbo! Os Rádio Macau parecem ter regressado ao seu melhor. Gostos não se discutem.
O Ano Velho está por dias. Deixa saudades? Numas coisas sim, noutras nem tanto. Ver os filhos crescerem é coisa cujo "valor" não é mensurável. Acordar todos os dias com quem se ama, também não. Sentir o tempo escorrer entre os dedos e pensar que aquela senhora que se encontrou há dias foi a nossa professora da quarta classe há mais de trinta anos, é assustador. Sobretudo quando se tem vontade de "mudar o mundo". Uma coisa é certa, tenho fé nos dias que se seguem. Venha de lá o Ano Novo que o velho já repousa no albúm das fotografias. Mas estou grato por tê-lo vivido.
Por vezes, para darmos dois passos em frente temos de dar um atrás, mais não seja para tomar balanço (vendo a coisa pelo lado que mais me convém, já que tenho "postado" pouco).
Justifica-se por isso que retorne à letra "X", porque descobri há pouco tempo este grupo que canta música de raiz tradicional portuguesa. Em português. Pelo que li, vi e ouvi, parece-me um projecto interessante, com três belas vozes. E a música quase que cheira a um híbrido de Júlio Pereira com Trovante. Eu gosto!
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(embora o meu tema favorito seja "Minha Circunstância", fico-me por este "Quer eu Queira, Quer Não", já que o vídeo apresenta melhor qualidade do que o primeiro)
Na segunda-feira à noite fui à assembleia geral da ADESER II, uma IPSS que entre outras valências é responsável pelo Centro de Acolhimento Temporário da Marinha Grande, casa que acolhe crianças enviadas pela Segurança Social ou pelos Tribunais, em situações complicadíssimas de risco. Estávamos onze pessoas das quais, seis pertenciam aos órgãos sociais.
Ontem à noite fui à assembleia geral do Sport Operário Marinhense, uma das mais importantes agremiações culturais da Marinha, (senão a mais importante), e uma referência na luta contra o antigo regime. Estávamos catorze pessoas das quais, seis ou sete pertenciam aos órgãos sociais. Por vontade expressa da maioria do sócios presentes, a assembleia acabou por não se realizar tendo sido adiada.
Sintomático numa cidade com uma grande tradição associativa.
É por isso que em dia de inauguração da XVIII Feira de Artesanato e Gastronomia, numa organização da Associação Social, Cultural e Desportiva de Casal Galego, uma IPSS que desenvolve um excelente trabalho, tenho de saudar centenas de pessoas que se envolvem de forma generosa na organização desta iniciativa. Este é o reverso da medalha e é esse que eu prefiro valorizar pelo seu bom exemplo. Parabéns e um abraço ao meu amigo Valério Silva, actual presidente da direcção.
É com grande gosto e prazer que todos os anos procuro assistir ao que posso do Festival de Jazz da Alta Estremadura. Não sou profundo conhecedor (nem pouco, mais ou menos), mas sou apreciador, sobretudo quando a coisa é ao vivo.
Na sexta-feira fazíamos anos de casados, os sogros ficaram com os miúdos (o que se agradece), para ir-mos jantar fora. Trocámos o jantar por um prato de sopa em casa e fomos ver um magnífico concerto com Bennie Wallace Trio, no auditório do Sport Operário Marinhense. Jazz americano com três magníficos interpretes, saxofone tenor, contrabaixo e bateria. Encheu-me as medidas. Mas para além do gozo que me deu assistir, foi o gozo de ver o prazer que aqueles três músicos tiveram a tocar para uma sala pouco mais de meia.
Parabéns à ADCA que uma vez mais organizou o evento, juntamente com as Câmaras da Marinha e de Leiria, e às direcções artística e executiva do festival a cargo de dois homens do Hot Club, Pedro Moreira e Luis Hilário. E já agora parabéns à minha mulher por ter casado comigo. Parabéns Ana.
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E porque não ouvir Carlos Bica? Um dos meus músicos preferidos cujo trabalho "Azul" tive o grande prazer de ver ao vivo, justamente, no Sport Operário, num dos festivais.
A primeira pessoa a quem eu ouvi falar dos Xutos & Pontapés, há muitos anos atrás, foi o meu amigo Zé Polido. Aliás, eram dele, na altura admirador confesso desta banda, as primeiras cassetes que ouvimos.
Passado este tempo todo os Xutos continuam com uma força e uma coerência enormes e eu rendo-lhes a melhor homenagem que posso, ouvir a sua música.
O mais velho começou a escola na sexta-feira. Esta é a primeira semana de aulas e para variar as "actividades de enriquecimento curricular" do 1º ciclo vão começar mais tarde. Lá vamos ter de nos organizar temporariamente para ir buscar o rapaz às 15:30.
Se os responsáveis por estes adiamentos tivessem a noção do transtorno que isto causa às famílias, de certeza que a tempo e horas teriam preparado as coisas para tudo começasse com a normalidade exigida.
Sem grande delongas, o melhor é mesmo ouvir Vanessa da Mata, aqui num casamento feliz com Ben Harper. Nada melhor para começar o dia do que ouvir aquilo que gostamos. Muito bom mesmo...
Olhar as estrelas foi coisa que me ficou de miúdo, dos tempos de escuteiro. Fixar o céu estrelado e descobrir as contelações, a Ursa Maior, a Ursa Menor. Através delas descobrir a estrela polar, a estrela que nos guia de volta a casa. É que às vezes, de pés assentes na terra, envolvidos no ruído que de forma cumplíce produzimos sem cessar, acabamos perdidos. Esquecemos que basta olhar o céu na noite limpa de ruído e procurar a estrela guia, na cauda da Ursa Menor e a cinco comprimentos de distância do limite da Ursa Maior, segui-la e reencontrar de novo o Norte. Coisas simples, que teimamos em esquecer.
É bom ter todo o tempo, fazer uso do gozo que nos dá, estar com todos, contigo. Deperdiçar um só segundo é deixar morrer a frágil pétala duma flor que não dura mais do que um ínfimo lapso do tempo que nos sobra. Mas a culpa também é da idade, a idade baralha-nos o tempo. Lembras-te quando ele teimava em não passar e a ansia de ser crescido corria mais veloz? Lembras-te quando o desperdiçavas porque era coisa que não te faltava? Agora corres tu atrás dele porque começas a perceber que é um bem precioso. Tarde de mais? Espero que não pois apenas tenho a certeza de que não o quero perder.
Um dia destes jantei com uns amigos da "velha guarda". Lembrámos tempos passados e partilhámos recordações e memórias. São as quarenta primaveras a amolecerem-me a arrogância. "Lesbras-te daquela canção que falava de nós, dos amigos?" perguntou-me o Jorge. "Lembro-me dela muitas vezes, «estátuas com alma de marfim»".
De forma particular para o Jorge e para todos os amigos que amamos,
(letra e música de Filipe Gomes)
Os ponteiros marcam sem se importar O tempo que teima em fugir Ficava aqui para sempre contigo sem sentir O frio, a chuva, os tormentos, o medo Como barco que encontrou um cais Fugir contigo nas asas do sonho E não voltar mais
E amanhã, outro dia como o de hoje virá Só não sei se ainda estarei, se parti, eu sei lá Esquecer faz parte da vida O que é bom vai-se com o vento E fica um retrato manchado pelas nódoas do tempo
E ela insiste A lágrima teima em cair, como gota De orvalho da manhã, que sorvo em tua boca
(refrão) Isto são coisas d’amizade Dias de glória sem ter fim Os homens morrem, as pedras não Estátuas com alma de marfim Isto são coisas d’amizade…
Atulhado de papéis e números, contas e mais contas, declarações fiscais, aulas, frequências, notas e os putos a exigirem cada vez mais mão de obra e cabeça fria. O tempo tem passado por mim a correr, sem dar conta do quanto preciso que ele pare para pôr a escrita em dia. Enfim, entre mortos e feridos, lá vão passando os melhores anos das nossas vidas.
E já que o tempo é curto, inversamente proporcional à vontade, detenho-me simplesmente em coisas... simples. Como esta Amy Winehouse, por exemplo. Uma voz fantástica e uma viola. Simplesmente...
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada. Estudar é nada. O sol doira Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca....
Fernando Pessoa
Às vezes tenho a sensação de não viver no tempo certo, ansiar pela Liberdade parece um parodoxo depois de Abril. O ar que hoje respiramos não é o mesmo, apesar da facilidade com que o fazemos. Nem damos conta. A Liberdade porém, nunca será uma tarefa acabada. Talvez por isso eu sinta esta inquietação.
Aproveito este fim de semana de selecção nacional para falar do clube do meu coração e da minha razão, o SPORTING CLUBE DE PORTUGAL!
Falo neste blog dos prazeres, das paixões. O Sporting também é isso, um grande prazer e uma grande paixão. Um clube diferente que se assume também, não pela quantidade, mas pela qualidade dos seus adeptos e simpatizantes. Como este grande sportinguista (cujo nome também começa por "S") e que aqui deixo pela qualidade e pelo bom gosto com que sempre nos brinda. Viva o Sporting! Viva o Sérgio Godinho! Às vezes o amor...
Num tempo em que não há tempo, apenas peço silêncio e sossego, oito minutos para a música de Pat Matheny & Charlie Haden e para as palavras intemporais de Ricardo Reis. Palavras ditas no tempo e no modo certos, palavras que nos trazem de volta ao que realmente importa, que recentram o discurso no verbo. Não é mais um momento pretencioso de poesia e de música calma, é uma angústia sentida, uma saudade do futuro, um dia que se esfuma e uma noite que se ergue sobre as cinzas de mais uma jornada de trabalho. Cada coisa... cada coisa... a chuva parou, a lua aparece, e tu, onde estás?
Cada Coisa
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. Não florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primavera Têm branco frio os campos.
À noite, que entra, não pertence, Lídia, O mesmo ardor que o dia nos pedia. Com mais sossego amemos A nossa incerta vida.
À lareira, cansados não da obra Mas porque a hora é a hora dos cansaços, Não puxemos a voz Acima de um segredo,
E casuais, interrompidas, sejam Nossas palavras de reminiscência (Não para mais nos serve A negra ida do Sol)
Pouco a pouco o passado recordemos E as histórias contadas no passado Agora duas vezes Histórias, que nos falem
Das flores que na nossa infância ida Com outra consciência nós colhíamos E sob uma outra espécie De olhar lançado ao mundo.
E assim, Lídia, à lareira, como estando, Deuses lares, ali na eternidade, Como quem compõe roupas O outrora compúnhamos
Nesse desassossego que o descanso Nos traz às vidas quando só pensamos Naquilo que já fomos, E há só noite lá fora.
Amanhã passam vinte anos sobre a morte de José Afonso. A RTP, serviço público de televisão, associa-se à homenagem e transmite esta madruga um debate sobre a sua vida e obra e o seu último concerto (no Coliseu), respectivamente às 00:35 horas e 01:25 horas. Em horário nobre a RTP transmite o concurso "Um Contra Todos" e a telenovela "Paixões Proibidas". O Zeca, um Grande Português, merecia bem mais! Em vinte anos mudou muita coisa, mas muito mais há a mudar, sobretudo no que à pequenez e à subserviência diz respeito. E tudo isto num tempo em que se puxa o lustre ao regime de Salazar e se apresenta o tirano ditador como um herói nacional. Continuamos por isso a ser um povo pequenino, com alguns Homens Grandes. Zeca Afonso é seguramente um deles. Viva o Zeca!
Um deste dias, remexendo nas cassetes antigas juntamente com o Francisco, encontrei uma gravação com cerca de 20 anos. Piano, viola, acordeão e voz. A canção chama-se Senhora dos Navegantes e foi uma das primeiras. A gravação foi feita por alturas de uma participação no Festival da Canção das Figueiras (Lina, Cati, Carla, Ana e Filipe). A gravação é má, muito má mesmo, as vozes mal se ouvem e nem a tecnologia conseguiu fazer milagres. Mesmo assim decidi partilhá-la, por todas as boas memórias que me traz. Perdoem-me a ousadia de hoje, a mesma ousadia que nos fez participar num festival popular com esta canção e com estes instrumentos, à época.
(nota: só agora me apercebi que pela primeira vez uma música minha fica ao alcance de quem a quiser ouvir; a internet é um mundo maravilhoso e assustador)
Senhora dos Navegantes (letra e música Filipe Gomes)
a morte vestiu de negro a saudade trajou também caminharam pela areia branca sem encontrarem ninguém
fizeram-se ao mar manso e calmo dentes aguçados e garras levantou-se o vento mais forte e a tempestade tragou expedições, amaldiçoadas
ó Senhora dos Navegantes dái-lhes vento de feição proteje-os da peste e do medo dos fantasmas da maldição vão levar em nome de Deus uma cruzada de remissão
com os olhos rasos de água e as bocas a soluçar juntam-se os gemidos e o pranto orações para os velar e os seus corpos mensageiros jazem agora no mar
A sensação é um bocado como a de ser pai, passei a dar-lhe(s) outro sentido depois de também a ter experimentado, depois de ter sentido na primeira pessoa o gozo e o sofrimento de transmitir e partilhar conhecimento.
Isabel
Irene
Graça
Irene
Pedro
Lurdes
Fernando
Isabel
Alberto
José
Márcio
Estes são os nomes de alguns dos meus professores, nomes que me marcaram e que guardo com todo o cuidado num lugar muito especial, para o resto da vida. Grande parte daquilo que sou devo-o a eles e por isso aqui lhes presto tributo.
Costumo dizer aos meus alunos que o sucesso deles será o meu sucesso. Espero desta forma poder retribuir aos meus professores aquilo que me deram e que nem sempre fui capaz de estar à altura de receber.
Bom, fico-me por aqui por que ainda tenho uma catrefada de exames para corrigir...
Repito a letra "o" para deixar uma sugestão, António Eustáquio e Carlos Barreto, guitolão e contrabaixo. Cliquem na imagem e visitem, porque vale a pena...
Diz João Afonso sobre o seu novo album intitulado Outra Vida (...) "Os acontecimentos que nos marcam e dão outro olhar sobre a vida que levamos, que nos fazem percebê-la de forma diferente. Entre Zanzibar e este Outra Vida nasceu a minha filha e morreu o meu pai. São acontecimentos marcantes que atribuem uma nova ordem à importância relativa de todas as coisas."
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Janeiro tem-se mostrado para mim, e para a família paterna, um mês de grandes provações. Meras coincidências para quem, como eu, não vê no destino qualquer determinismo. A Outra Vida surge da inevitabilidade do respirar. Não é tragédia nem fim. É tão simplesmente Outra Vida, outra dimensão. E mesmo que o nosso cepticismo negue qualquer "fé" numa existência para além, a dignidade e a bondade de carácter e de sentimentos, provada em vida, dos que todos os dias nos deixam e nos fazem fixar os olhos no céu escuro procurando uma nova estrela, permanece e perdura para nos consolar e recordar que um bom exemplo de vida vale mais que tudo o que possamos acrescentar.
Ao tio João, ao pai António e ao tio Manel, dedico este magnifico tema do João Afonso. Onde quer que estejam...
Deixei o tempo correr, impus a mim mesmo não escrever durante a quadra. Resisti à tentação de falar do (n)atal, o pico da época comercial de Inverno, a irracionalidade e a hipocrisia humanas em todo o seu esplendor. É que afinal este é um blogue sobre prazeres, paixões e coisas simples, e nem de perto nem de longe queria descambar, movido pela irritação e pelo nojo que sinto nesta altura do ano.
Adiante.
Falo por isso do (N)atal, o Natal dos Simples. Fecho os olhos por um instante e rebobino o filme. Somos pequenos, inocentes e sentimos no ar um cheiro a festa, a filhoses e a canela. Um bando de primos que se divertem tentando descobrir o conteúdo pela forma dos embrulhos. Espera-se ansiosamente a Missa do Galo. Aquela é a noite mais longa do ano e a familia está toda presente. Hoje temos permissão para nos deitarmos tarde e até podemos beber uma xícara de café da avó Laura. Tranca-se o Pai Natal na cave escura e bafienta e o Menino Jesus toma o centro da sala ilumada pelas velas, pela lareira e lá fora pelas estrelas. Tudo parece genuíno, eterno e incorruptível. Tive uma ideia, já sei como é que vou começar a próxima redacção que a professora mandar fazer: “Eu gosto muito do Natal!”.
À distância dos anos e dos quilos, acrescento: “...do Natal dos Simples”.
NATAL DOS SIMPLES (Zeca Afonso)
Vamos cantar as janeiras Vamos cantar as janeiras Por esses quintais adentro vamos Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas Vamos cantar orvalhadas Por esses quintais adentro vamos Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte Vira o vento e muda a sorte Por aqueles olivais perdidos Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra Muita neve cai na serra Só se lembra dos caminhos velhos Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa Quem tem a candeia acesa Rabanadas pão e vinho novo Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura Já nos cansa esta lonjura Só se lembra dos caminhos velhos Quem anda à noite à ventura
Repito a letra "m" para saudar um amigo que comigo tem partilhado este espaço. É justo que o faça no dia em que o seu ano dobra e as "33" velas serão sopradas, presumo eu, por avô e neta.
Esta é a forma mais simples e autêntica que tenho para lhe agradecer o contributo que tem dado a este blogue, através dos seus comentários. Embora não o conhecendo profundamente, reconheço-lhe as qualidades dum homem bom e sensivel, a quem os anos temperaram com o sal da vida, capaz de dar de si antes de pensar em si. Parabéns Marinhoto! (a poesia, essa fica para quem sabe do ofício...)
de Alberto Caeiro,
Sou um guardador de rebanhos Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca.
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto, E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei da verdade e sou feliz.
Eu tive duas mães, sorte a minha. Uma que me trouxe ao mundo e que me ensinou os primeiros passos. Outra que por vocação e amor aceitou o desafio de me educar e fazer crescer. Sorte a minha. A ambas amei, amo e amarei. Também elas me amaram, amam e amarão, sorte a minha. Não cabem nas palavras todos os sentimentos que a lágrima que quero reter a todo o custo encerra. Sorte a minha ter nascido filho de duas mães, ter experimentado o seu doce colo e o seu sorriso franco. Se hoje vires a tua, não digas nada, dá-lhe apenas um beijo e recebe o brilho do seu olhar, mais luminoso do que todas as estrelas do céu. Mas se já não for possivel, fecha os olhos, deixa a teimosa lágrima correr para a terra e oferece-lha como prova da tua ternura e da tua saudade.
Mirei-te, de soslaio. Mirei-te, novamente. Uma e outra vez. Até já me tinha esquecido de ti aí em cima. Mas não sou o único! Contemplar-te com vagar é um luxo que há muito não experimento. Talvez quando os dias acalmarem. Talvez. Até lá, não te eclipses, não te vás. Continua a marcar os partos, a fazer companhia às serenatas, crescente, decrescente, minguante, cheia, pouco importa, desde que permaneças no teu lugar à minha espera.
Soneto da Lua
Por que tens, por que tens olhos escuros E mãos lânguidas, loucas, e sem fim Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim Impuro, como o bem que está nos puros ?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros Num rosto como o teu criança assim Quem te criou tão boa para o ruim E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me pressa A alma, que por ti soluça nua E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tão pouco a mulher que anda na rua Vagabunda, patética e indefesa Ó minha branca e pequenina lua!
Vinicius de Moraes
e o meu contributo (letra e música Filipe Gomes)
só por ti na noite, procurando em vão um porto seguro na escuridão não tenho medo que os baixios me façam naufragar só por ti eu ia a qualquer lugar
a Lua aparece, o temporal se acalma e sinto um vazio cá dentro, na alma cansado de ter resistido não sei como sobrevivi pouco depois adormeço pensando em ti
......o corpo como que morreu ......a alma como que partiu ......tu foste o lado da Lua ......que mais ninguém viu
sonho com o vento, sonho com o mar e algo me diz que te hei-de encontrar talvez a próxima maré traga sinais de ti e o vento me conte o que não vi
o Sol já vai alto, sinto-me acordar por mais que procure não consigo encontrar nem o barco em que naveguei, nem o farol que me guiou nem o meu amor que o mar me roubou