1.11.2007

(n) Natal dos Simples

Deixei o tempo correr, impus a mim mesmo não escrever durante a quadra. Resisti à tentação de falar do (n)atal, o pico da época comercial de Inverno, a irracionalidade e a hipocrisia humanas em todo o seu esplendor. É que afinal este é um blogue sobre prazeres, paixões e coisas simples, e nem de perto nem de longe queria descambar, movido pela irritação e pelo nojo que sinto nesta altura do ano.
Adiante.
Falo por isso do (N)atal, o Natal dos Simples. Fecho os olhos por um instante e rebobino o filme. Somos pequenos, inocentes e sentimos no ar um cheiro a festa, a filhoses e a canela. Um bando de primos que se divertem tentando descobrir o conteúdo pela forma dos embrulhos. Espera-se ansiosamente a Missa do Galo. Aquela é a noite mais longa do ano e a familia está toda presente. Hoje temos permissão para nos deitarmos tarde e até podemos beber uma xícara de café da avó Laura. Tranca-se o Pai Natal na cave escura e bafienta e o Menino Jesus toma o centro da sala ilumada pelas velas, pela lareira e lá fora pelas estrelas. Tudo parece genuíno, eterno e incorruptível. Tive uma ideia, já sei como é que vou começar a próxima redacção que a professora mandar fazer: “Eu gosto muito do Natal!”.
À distância dos anos e dos quilos, acrescento: “...do Natal dos Simples”.



NATAL DOS SIMPLES (Zeca Afonso)

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

2 comentários:

Marinhoto disse...

Mais uma vez estou em completa sintonia contigo, Filipe.
Perante este natal dos nossos dias talvez não sinta a repulsa a que aludes, mas cada vez me sinto menos identificado com ele!...
O verdadeiro ‘Espírito do Natal’ está morto e, a cada ano vai sendo mais enterrado pela desenfreada cavalgada do ‘espírito do consumo’ que a (quase) todos corrói e manieta…
Como é triste sentir-se que, mal saímos do Verão e logo nos começam a falar de um certo natal!...

Aquilo que escreveste trouxe-me à ideia (e quantas vezes eu penso nisso, meu Deus!!...) os Natais da minha infância…
As posses da minha modesta família eram poucas, pouquíssimas, mas jamais eu e o meu irmão deixamos de ter o conforto do nosso Natal…
O Menino Jesus jamais deixou de nos visitar, e eu não tenho palavras para descrever a agitação que me ia na alma naquelas noites de vinte e quatro para vinte e cinco de cada Dezembro!...
A manhã tardava em clarear dando-me a oportunidade de ir à lareira recolher o que o Menino havia deixado no sapatinho!...
Havia sempre umas guloseimas que me pareciam (e eram!...) as coisas mais deliciosas do mundo! Havia ainda, quase sempre, uma ou outra pecinha de roupa que, ao contrário do que acontece hoje com muitas das nossas crianças, eram presentes altamente considerados, os quais se fazia gala em mostrar naquele dia de festa!... E, quando a vida tal permitia, poderia aparecer também um brinquedozito (de madeira, ou de lata) que se tornava num tesouro precioso!...
Mas eu era feliz, muito feliz, naqueles Natais!

Hoje, à minha neta, vou ensinando que é o Menino Jesus quem traz os presentes, sem todavia lhe negar o sonho do Pai Natal. Isso, penso, seria uma maldade que entendo não dever fazer-lhe, já que o senhor de barbas brancas faz parte da nóvel cultura dela!...
Mas ela, para meu descanso e para meu gozo, já vai dizendo que esta ou aquela prenda foi o Menino Jesus (de fulano ou beltrano) quem a trouxe!...

Como vez, gosto (e sou adepto) do teu Natal dos Simples.

Obrigado pela entrada e muito obrigado também pelo poema do Zeca!

Marinhoto disse...

Só que aquele 'vez' em vez de VÊS, foi a nódoa que só agora notei...

Coisas!...