11.21.2009

(f) Fio de Vida


suspensos por cordas
pairamos
como marionetas sobre as águas
ora calmas, ora revoltas
e basta que o ténue fio de vida se parta
para sentirmos
a dor e a revolta
o medo
o efémero
impresso como marca d’água no meu peito
a vida
e a morte
e a vida que lhe sucede
estarei eu aqui?
parte de mim partiu
nas águas que passaram sob os pés nus e frios
engrossando as lágrimas que não contive
pois só quando um de nós
se vai
é que damos conta da espessura
do fio de vida
da partida

.

8.04.2009

(playlist) Bomba Relógio

(post-it) As Listas

(apesar de verificar que estou a plagiar as participações do João Paulo Pedrosa no seu novo blog, mantenho os meus "post-it", que aliás já escrevo, embora intermitentemente, desde Novembro de 2005)

Adiante...

O que me leva hoje a escrever estas poucas linhas, é a sensação que tenho de uma certa hipocrisia reinante, sobretudo em vésperas eleitorais. Sinceramente não percebo os comentários feitos por pessoas da área do PS em relação à exclusão de Pedro Passos Coelho das listas do PSD, quando não tiveram uma única palavra ou comentário quando o Dr. Osvaldo de Castro foi relegado nas listas do PS, para número sete por Setúbal, um lugar que não garante a sua eleição. Para bom entendedor...
Cada vez me sinto mais desconfortável com esta realidade político-partidária em que o mérito e o trabalho dedicado são sempre engolidos pelo pântano dos projectos pessoais de poder e pelos interesses das fervilhantes capelinhas, terreno traiçoeiro e lamacento onde se movem sem qualquer pudor cabotinos e caciques.
Ao Dr. Osvaldo Castro o meu reconhecimento pelo trabalho que ao longo destes anos tem desenvolvido no Parlamento.

7.20.2009

"O homem; as viagens"

Hoje ouvi na rádio este poema. Não o conhecia. Confesso até que conheço pouca poesia. Mas a voz e a expressividade (únicas) de Fernando Alves (TSF), fixaram-me a atenção nas palavras. Nem por acaso. Ainda ontem comentava com um familiar: como é possível que o homem consiga feitos tão extraordinários, avanços tecnológicos sem paralelo e não consiga resolver um dos problemas mais básicos da humanidade, a pobreza.
O Homem chegou à lua há já 40 anos…



O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto — é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.


Carlos Drummond de Andrade

7.11.2009

SINAIS


Signs

"MOMENTOS"


Ontem, em noite de ante-estreia da peça “Momentos”, pelo grupo de teatro do Sport Operário Marinhense, senti o nervoso miudinho de outros tempos, emocionei-me, diverti-me e, sobretudo, senti um gozo tremendo de ao fim de não sei quantos anos estar novamente do lado de lá. Há muito que não acontecia, pelo que não me surpreendeu o espanto com que alguns me abordaram por me verem ali, longe de imaginarem que sempre ali estive. Eu pertenço ali, embora as circunstância da vida me tenha remetido para aqui. Mas nuca deixei de estar lá. Não digo isto com mágoa, digo-o apenas pela nostalgia dos grandes lapsos de tempo em que estes momentos acontecem na minha vida e pelo grande apelo que sinto por dar o pouco do que de melhor tenho. Não é vaidade, mas antes uma necessidade. É como respirar.
Agradeço à Sandra José ter-me convidado para esta peça, uma peça feita de momentos, uma série de pequenos textos que contam uma não estória, sem princípio nem fim, entrecortada por algumas cantigas, cantadas na primeira pessoa por um circunstancial grupo de rapazes com a mesma paixão – os sons e as palavras.
À Sandra, uma mulher com um profundo sentido estético e uma criatividade extraordinária, o meu obrigado por este momento, a repetir logo à noite quando faltar um quarto para as dez, no auditório do SOM.



(reportagem Jornal da Marinha "Operário prepara novo espectáculo", aqui)

6.20.2009

O último dia da primavera


Hoje acordei nostálgico.
De há uns anos a esta parte acontece-me sempre isto no último dia da primavera.
Acordei com a sensação de estar deslocado no tempo, de viver um tempo que não é meu, de não estar a viver o meu verdadeiro tempo.
Acordei com a sensação de que o vento me queria soprar qualquer coisa indizível. Mas não corria nem uma brisa.
Acordei e levantei-me, como faço todos os dias. Porque não basta acordar.
Hoje acordei. Amanhã, não sei.
O que sei é que todos os dias acordo para ser um homem novo. Por isso levanto-me. E caiu.
Hoje acordei. Amanhã, não sei.
Caiu e levanto-me. Todos os dias. Até que chegue a última primavera.



2.03.2009

(f) Ficção


(continuação/conclusão)


Escondendo a cara entre as mãos, o pai começou a chorar de forma convulsiva, o que estranhamente pareceu surpreender o filho que se habituara a ver nele um homem frio, um homem que jamais deixaria que as emoções o tomassem. Mas desta vez tudo era diferente, a vida parecia desfazer-se em nada, as feridas abertas durante uma vida de equívocos pareciam mais abertas do que nunca deixando a nú as fragilidades duma relação que ambos desejavam intimamente mas para a qual nunca tinham arranjado coragem, nem espaço. E ainda havia o orgulho, um fardo que ambos carregavam e que lhes negava um simples beijo de boas noites, ou um gesto tão natural como um afago, de pai para filho, de filho para pai.

Tentando recompor-se, enxugando os olhos com um lenço amarrotado o pai deixou-se uma vez mais vencer pelo orgulho:

Pai – Tu realmente não percebes mesmo nada da vida, queres-me fazer sentir culpado de sempre ter querido para ti o melhor… mas poupa-me, poupa-me por uma vez… a minha vida está presa por um fio e tu não percebes o que eu sinto, o que é ser pai… um dia tu vais perceber…

Com os olhos rasos de água o filho soluçou algumas palavras quase imperceptíveis.

Filho – Eu vou ser pai…

Pai – O quê?

Filho – Sim pai, foi o que ouviste, vais ser avô…

Como se de repente o céu se abrisse após uma forte tempestade, aquela revelação pareceu iluminar de súbito o olhar cansado do pai que, deixando cair os braços perguntou em tom patético:

Pai – Mas como foi isso acontecer?

Entre as lágrimas que lhe corriam pela cara o filho não foi capaz de evitar um sorriso.

Filho – Ora pai, como foi?

Pai – Como foi eu sei, mas… tu não és casado…

Filho – E é preciso ser casado para fazer um filho?

Pai – Não mas… eu?... Avô?... Eu não estava nada à espera disto… eu…

Filho – Pai, eu e a Paula queria-mos muito esse filho. Já faz três anos que vivemos juntos e falta-nos qualquer coisa, sei lá. O nosso amor vai muito para além de nós, faz-nos desejar que esse sentimento se transforme nalguém de que possamos cuidar, educar, acarinhar, alguém que possa ser a prova do quanto nos desejamos…

Escondendo uma vez mais o rosto com as mão trémulas, o pai parecia tomado duma estranha alegria, um turpor que lhe fazia quase acreditar que a sentença ouvida minutos atrás não fazia qualquer sentido e que a vida valia agora mais muito mais, que tinha valido a pena todo o sofrimento, que a morte anunciada não passava dum episódio menor face à alegria da nova vida gerada, perpetuadora da sua memória e do seu sangue. E sem se conter abraçou o filho.

Pai – Desculpa! Desculpa!

O filho ficou imóvel, quase assustado perante aquela natural e óbvia manifestação de alegria do pai. Nunca o calor de um abraço lhe soubera tão bem, mas não sabia como reagir.
Beijando-o na face e apertando-o cada vez mais contra si, o pai parecia transfigurado.

Pai – Desculpa-me Pedro, eu sei que não fui um bom pai...

Retribuindo por fim o abraço, Pedro deixou-se envolver pelos braços do pai, procurando neles a protecção e o conforto que sempre desejara, que sempre tinham desejado.

Filho – Não digas isso papá, eu nunca facilitei as coisas entre nós. Eu sei que sempre quiseste o meu bem.

Pai – Não, era minha obrigação agir de outra forma mas, ser pai, para mim, foi a tarefa mais difícil que alguma vez enfrentei. O medo de errar, o medo de não te fazer feliz, o medo de ter ver crescer, o medo de te educar, de te ajudar a tomar decisões ou de aceitar as tuas decisões, fez-me afastar de ti. Ser pai deveria ter sido tão natural como respirar mas, pouco a pouco, com o acumular dos erros e dos desencontros, essa alegria imensa que vivi quando a tua mãe me disse que estava grávida de ti, foi-se transformando num sufoco, numa culpa, na minha maior culpa! Não imaginas a dor que tenho sentido durante todos estes anos…

Filho – Não sejas tão cruel contigo, tudo o que tenho, devo-to a ti! Se te censuras pelo que me deste, é a mim que censuras pelo que sou. E não creio que seja assim tão mau, pois não?

Ambos sorriram. A centelha de uma nova vida parecia ter transformar por completo um percurso tumultuoso, dando-lhes uma nova esperança, a de se amarem sem medo, no pouco tempo que lhes restava.

Pai – Eu errei muito, Pedro. E o que me pesa mais na consciência é que eu tive sempre essa percepção e nunca fiz nada para mudar o rumo das coisas.

Filho – Sabes, tu tens uma grande vantagem sobre mim, tu já tiveste a minha idade e já estiveste dos dois lados, e isso, embora eu nunca o tenha admitido, conta muito a teu favor, dá-te autoridade para me fazeres ver para além! Até parece que não sabes o que fazias quando tinhas a minha idade, quando eras simplesmente “filho”!?

Pai – Por saber é que me pesa a consciência. A irreverência pode fazer-nos genuínos mas leva-nos muitas vezes a não medir os actos ou as palavras. O que nem sempre é mau. Mau foi eu não ter tido a capacidade para perceber que esse também foi o meu caminho, é o teu caminho, e será o caminho do teu filho, do meu neto… vou ser avô… acho que ainda nem estou bem a acreditar. Não imaginas a alegria que hoje me deste!

Uma vez mais a ironia das circunstâncias parecia pairar sobre eles, transformando-os em marionetas manipuladas por um poder tão cruel quanto sublime, um poder que num momento lhes roubava a vida para logo a seguir a restituir com uma força ainda maior. Mas para Pedro, isso não chegava para lhe afastar o sentimento de medo de perder o pai. A revelação da sua paternidade transformara-se ela própria numa dor profunda, a dor de não poder partilhar com o pai, o seu filho. Pedro não conseguiu por isso evitar um profundo olhar de tristeza. Mais do que o desencontro das suas vidas, a ideia que naquele momento mais o atormentava era a de o filho poder nunca vir a conhecer o avô.
Percebendo isso o pai tentou sossega-lo:

Pai – Não fiques assim, Pedro. Vale a pena acreditar que nada foi em vão! Vale a pena viver cada momento, cada segundo, saboreando os filhos, os netos, a vida…

Pedro abraçou novamente o pai.


No dia seguinte pai e filho voltaram ao hospital. O filho caminhava lentamente ao lado do pai, amparando-o com o seu braço. Desta vez fora ele que pedira ao pai para o acompanhar. Os acontecimentos do dia anterior ainda estavam muito presentes nos seus rostos, um misto de alegria e de arrependimento, de esperança e de apreensão. Sabiam que nada podia apagar a doença do pai e a inevitabilidade do diagnóstico do médico. A realidade tinha tido o dom de os aproximar, mas a aproximação trazia-lhes agora a angústia do medo.
Desta vez o elevador não estava vazio, misturavam-se rostos com expressões com rostos indiferentes. O elevador era como a vida, suspenso por cabos, desafiando a força da gravidade.
Chegados ao consultório o pai bateu à porta. Do outro lado ouviu-se uma voz:

- Entre.

Pai – Dá-me licença senhor doutor?

Sempre amparado pelo filho, entraram no consultório mas logo se aperceberam de que o médico não era o mesmo e que por certo se haviam enganado. À sua frente estava sentada uma jovem médica com um rosto tranquilo.

Pai – Desculpe mas, parece que nos enganámos no consultório.

Médica – Como assim?

Filho – Nós procuramos o médico do meu pai.

Médica – Mas, o senhor como se chama?

Pai – Horácio Costa, senhora doutora.

Médica – Não, o senhor de facto tem consulta comigo, tenho aqui a sua ficha, os exames.

Pai – Não estou a perceber. O meu médico é o Dr. Santos…

Médica – Dr. Santos? Mas aqui no serviço não há nenhum Dr. Santos!

Pai – Como assim? Então mas ainda ontem aqui estivemos e o Dr. até me deu conta dos resultados dos exames!?...

Médica – Não, deve haver aqui alguma confusão. Os resultados dos seus exames só hoje de manhã é que ficaram prontos, como é que alguém lhos deu ontem?

Filho – Mas doutora, o médico até disse que o estado do meu pai era muito grave e que lhe restava pouco tempo de vida…

Médica – Grave? Mas o seu pai não tem nada de muito grave, nada que não se possa resolver. Deve haver aqui algum equívoco. Só pode ser um equívoco!

O pai, que por momentos ficara calado, numa fracção de segundos sentiu a percorre-lhe a memória todas as emoções das últimas vinte e quatro horas, como se uma vida inteira desaguasse num único jorro, como se o fio condutor da vida apenas tivesse uma extremidade. Olhando para trás no tempo, conseguia agora perceber com clareza o essencial, como se o mundo deixasse subitamente de ter segredos e sorrindo exclamou:

Pai – Tem razão senhora doutora, tem a razão, tudo não passou de um grande equívoco!...



FIM



Por todas as saudades que tenho, dedico esta pequena história ao meu pai, esperando ter a sorte de um dia experimentar a alegria de ser avô. Pelo menos a acreditar nos relatos dos que o são.


A quem tem a paciência de me ler, as minhas desculpas pela demora e pela falta de persistência. Esse é talvez um dos meus maiores defeitos.

12.27.2008

(f) Ficção


(continuação)

Com o sentimento comum de quem queria abandonar aquele hospital, transformado súbita e simultaneamente numa sala de audiências e no cárcere da angústia provocada pela sentença pronunciada pelo médico, o mais depressa possível, pai e filho entraram no elevador. O filho questionou o pai enquanto tentava localizar o botão que lhes desse acesso à saída.

Filho – Já não me lembro, a saída é no zero ou no menos um?

Pai – É no menos um. Irónico, não é?

O filho lançou ao pai um olhar de interrogação.

Pai – Ter de descer tão baixo para encontrar a saída...

O elevador começou a descer. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Uma vez mais os olhares não se cruzaram, o medo de se encararem tolhia-lhes a vontade imensa de se abraçarem. Sem o exteriorizarem ambos sentiam culpa e remorsos. Mas apenas procuravam, a todo custo, que as lágrimas não denunciassem a fragilidade daquele momento, um turbilhão de pensamentos e sentimentos que não lhes permitiam qualquer espaço para alguma lucidez.
Subitamente, entre o quarto e o terceiro andares, o elevador estremeceu com brusquidão e parou.

Pai – O que foi isto?

Filho – Foi a porcaria do elevador que deve ter encravado. Só faltava mais esta!... E eu com tanta coisa para fazer.

Pai – Eu já não posso dizer o mesmo…

Com indisfarçável transtorno o filho percebeu que as palavras que lhe saíam da boca não tinham qualquer sentido para quem percebia pela primeira vez que o efémero é a mais constante e imediata condição da vida.
Desesperado começou a bater nos botões gritando pelo intercomunicador:

Filho – Está aí alguém? Está aí alguém? Estamos fechados no elevador! Ajudem-nos!

A resposta foi o silêncio, do outro lado não se ouvia mais do que um pequeno ruído quase imperceptível. Permaneceram imóveis virados para a porta, não ousando sequer olhar-se nos olhos. Numa nova tentativa o filho insistiu, desta vez mais alto, como se o volume da voz fosse determinante para serem socorridos.

Filho – Está aí alguém que nos possa tirar daqui? Estamos fechados no elevador! Ajudem-nos! Ajudem-nos, por favor!

De novo, foi o silêncio a tomar conta do elevador. Pai e filho continuavam virados para a porta como se esperassem que esta se fosse subitamente abrir e transpondo-a se pudessem libertar daquele pesadelo. O medo de se enfrentarem olhos nos olhos misturava-se e confundia-se com a sensação de impotência de enfrentar a realidade. Pela primeira vez não tinham como fugir um do outro.
Ao fim de algum tempo o pai interrompeu o silêncio.

Pai – Foi a primeira vez que te ouvi pedir ajuda.

Filho – Se calhar foi porque nunca paraste para me ouvir. Afinal estavas sempre cheio de trabalho.

Pai – Estava cheio de trabalho para te dar aquilo que nunca tive. Uma vez mais sou o culpado de tudo. Essa tua resposta era mais que previsível, sais à tua mãe.

Filho – Não comeces. Se não fosse a minha mãe não estaria aqui neste momento.

Pai – Tiveste pena de mim, foi?

Filho – Apenas acedi ao pedido da mãe.

Pai – Acedeste ao pedido da mãe… vocês são todos iguais! Se fosse eu que te pedisse…

Filho – Mas tu alguma vez me pediste alguma coisa?

A discussão começou a subir de tom. O pai virou-se para o filho e puxou-o pelo ombro obrigando-o a olharem-se de frente.

Pai – E tu alguma vez me ouviste? Alguma vez deste importância aos conselhos que te dei? Alguma vez fizeste aquilo que te disse? Tu sempre tiveste a mania que conseguias tudo sozinho. Tu nunca passaste dum garoto mimado que sempre teve tudo sem fazer nada por isso, sem merecer, tu não sabes o que é a vida! Eu sempre soube o que era melhor para ti!

Filho – Quem disse? Quem disse que eu queria tirar uma porcaria dum curso? Quem disse que eu queria passar o resto da vida a usar fato e gravata? Quem disse que eu queria perder o meu tempo em reuniões com clientes, a fazer orçamentos, a correr dum lado para o outro? Foste tu que me obrigaste a ser o que eu não quero! A ter esta vida de merda só para tu dizeres que tens um filho engenheiro! Tu nunca quiseste o melhor para mim, tu sempre quiseste o que achavas que era melhor para mim.

Pai – E o que querias, diz lá? Passar o resto da vidinha com o papá a sustentar-te porque te julgavas um artista? Querias viver dos rabiscos, era? Nunca vi ninguém a comer sem trabalhar. Os únicos pintores que eu conheço que vivem do seu trabalho são os que pitam paredes e prédios e o raio que os parta!

Filho – Vês como és mesquinho, vês? O dinheiro, sempre o dinheiro!

Pai – O dinheiro não, uma vida digna, de trabalho! Tu sabes lá o que eu sofri para manter um casamento que te desse uma família normal! Mas o que é que tu sabes dos sacrifícios que fiz toda a vida para te dar o melhor?

Filho – O melhor que eu não queria, nem pedi?

Pai – Tudo o que eu te dei foi para teu bem!

Filho – Deixa de ser hipócrita, eu não pedi para nascer!

Pai – Era minha obrigação dar-te uma educação decente, princípios. Tu não sabes o que é ser pai…

Filho – Chamas princípios a obrigar-me a fazer o que não queria?

Pai – Tu tens um grande problema, não consegues ir além do teu umbigo. Escuta lá, o que é que tu deste para mereceres o que tens?

Filho – E tu, o que é que me deste para me exigires alguma coisa? Estavas sempre ausente, nunca podias!

Pai – Cala-te, não me faltes ao respeito que ainda sou teu pai!

Filho – És meu pai, mas não és meu dono!

Instintivamente o pai levantou a mão como se lhe fosse bater.

Pai – Cala-te! Cala-te! – gritou.

O filho não contendo as lágrimas fez-lhe frente levantando a voz.

Filho – Vá bate-me, bate-me!

Como se alguém tivesse por momentos parado um filme, ficaram estáticos, mantendo as posições a que o calor da discussão os levara – o pai de mão levantada, pronto para lhe dar uma palmada, e o filho, de cabeça bem levantada, hirto, desafiador, olhando-se olhos nos olhos. Era a primeira vez que tal acontecia em muitos anos - olharem-se olhos nos olhos. Mas mais do que raiva, o que se podia adivinhar naquela troca de olhares, era ressentimento e muita amargura.

(continua)