7.11.2009
"MOMENTOS"
Ontem, em noite de ante-estreia da peça “Momentos”, pelo grupo de teatro do Sport Operário Marinhense, senti o nervoso miudinho de outros tempos, emocionei-me, diverti-me e, sobretudo, senti um gozo tremendo de ao fim de não sei quantos anos estar novamente do lado de lá. Há muito que não acontecia, pelo que não me surpreendeu o espanto com que alguns me abordaram por me verem ali, longe de imaginarem que sempre ali estive. Eu pertenço ali, embora as circunstância da vida me tenha remetido para aqui. Mas nuca deixei de estar lá. Não digo isto com mágoa, digo-o apenas pela nostalgia dos grandes lapsos de tempo em que estes momentos acontecem na minha vida e pelo grande apelo que sinto por dar o pouco do que de melhor tenho. Não é vaidade, mas antes uma necessidade. É como respirar.
Agradeço à Sandra José ter-me convidado para esta peça, uma peça feita de momentos, uma série de pequenos textos que contam uma não estória, sem princípio nem fim, entrecortada por algumas cantigas, cantadas na primeira pessoa por um circunstancial grupo de rapazes com a mesma paixão – os sons e as palavras.
À Sandra, uma mulher com um profundo sentido estético e uma criatividade extraordinária, o meu obrigado por este momento, a repetir logo à noite quando faltar um quarto para as dez, no auditório do SOM.
(reportagem Jornal da Marinha "Operário prepara novo espectáculo", aqui)
Agradeço à Sandra José ter-me convidado para esta peça, uma peça feita de momentos, uma série de pequenos textos que contam uma não estória, sem princípio nem fim, entrecortada por algumas cantigas, cantadas na primeira pessoa por um circunstancial grupo de rapazes com a mesma paixão – os sons e as palavras.
À Sandra, uma mulher com um profundo sentido estético e uma criatividade extraordinária, o meu obrigado por este momento, a repetir logo à noite quando faltar um quarto para as dez, no auditório do SOM.
(reportagem Jornal da Marinha "Operário prepara novo espectáculo", aqui)
Posted by Filipe Gomes at 12:02 0 comments
6.20.2009
O último dia da primavera
Hoje acordei nostálgico.
De há uns anos a esta parte acontece-me sempre isto no último dia da primavera.
Acordei com a sensação de estar deslocado no tempo, de viver um tempo que não é meu, de não estar a viver o meu verdadeiro tempo.
Acordei com a sensação de que o vento me queria soprar qualquer coisa indizível. Mas não corria nem uma brisa.
Acordei e levantei-me, como faço todos os dias. Porque não basta acordar.
Hoje acordei. Amanhã, não sei.
O que sei é que todos os dias acordo para ser um homem novo. Por isso levanto-me. E caiu.
Hoje acordei. Amanhã, não sei.
Caiu e levanto-me. Todos os dias. Até que chegue a última primavera.
Posted by Filipe Gomes at 10:41 3 comments
2.03.2009
(f) Ficção
(continuação/conclusão)
Escondendo a cara entre as mãos, o pai começou a chorar de forma convulsiva, o que estranhamente pareceu surpreender o filho que se habituara a ver nele um homem frio, um homem que jamais deixaria que as emoções o tomassem. Mas desta vez tudo era diferente, a vida parecia desfazer-se em nada, as feridas abertas durante uma vida de equívocos pareciam mais abertas do que nunca deixando a nú as fragilidades duma relação que ambos desejavam intimamente mas para a qual nunca tinham arranjado coragem, nem espaço. E ainda havia o orgulho, um fardo que ambos carregavam e que lhes negava um simples beijo de boas noites, ou um gesto tão natural como um afago, de pai para filho, de filho para pai.
Tentando recompor-se, enxugando os olhos com um lenço amarrotado o pai deixou-se uma vez mais vencer pelo orgulho:
Pai – Tu realmente não percebes mesmo nada da vida, queres-me fazer sentir culpado de sempre ter querido para ti o melhor… mas poupa-me, poupa-me por uma vez… a minha vida está presa por um fio e tu não percebes o que eu sinto, o que é ser pai… um dia tu vais perceber…
Com os olhos rasos de água o filho soluçou algumas palavras quase imperceptíveis.
Filho – Eu vou ser pai…
Pai – O quê?
Filho – Sim pai, foi o que ouviste, vais ser avô…
Como se de repente o céu se abrisse após uma forte tempestade, aquela revelação pareceu iluminar de súbito o olhar cansado do pai que, deixando cair os braços perguntou em tom patético:
Pai – Mas como foi isso acontecer?
Entre as lágrimas que lhe corriam pela cara o filho não foi capaz de evitar um sorriso.
Filho – Ora pai, como foi?
Pai – Como foi eu sei, mas… tu não és casado…
Filho – E é preciso ser casado para fazer um filho?
Pai – Não mas… eu?... Avô?... Eu não estava nada à espera disto… eu…
Filho – Pai, eu e a Paula queria-mos muito esse filho. Já faz três anos que vivemos juntos e falta-nos qualquer coisa, sei lá. O nosso amor vai muito para além de nós, faz-nos desejar que esse sentimento se transforme nalguém de que possamos cuidar, educar, acarinhar, alguém que possa ser a prova do quanto nos desejamos…
Escondendo uma vez mais o rosto com as mão trémulas, o pai parecia tomado duma estranha alegria, um turpor que lhe fazia quase acreditar que a sentença ouvida minutos atrás não fazia qualquer sentido e que a vida valia agora mais muito mais, que tinha valido a pena todo o sofrimento, que a morte anunciada não passava dum episódio menor face à alegria da nova vida gerada, perpetuadora da sua memória e do seu sangue. E sem se conter abraçou o filho.
Pai – Desculpa! Desculpa!
O filho ficou imóvel, quase assustado perante aquela natural e óbvia manifestação de alegria do pai. Nunca o calor de um abraço lhe soubera tão bem, mas não sabia como reagir.
Beijando-o na face e apertando-o cada vez mais contra si, o pai parecia transfigurado.
Pai – Desculpa-me Pedro, eu sei que não fui um bom pai...
Retribuindo por fim o abraço, Pedro deixou-se envolver pelos braços do pai, procurando neles a protecção e o conforto que sempre desejara, que sempre tinham desejado.
Filho – Não digas isso papá, eu nunca facilitei as coisas entre nós. Eu sei que sempre quiseste o meu bem.
Pai – Não, era minha obrigação agir de outra forma mas, ser pai, para mim, foi a tarefa mais difícil que alguma vez enfrentei. O medo de errar, o medo de não te fazer feliz, o medo de ter ver crescer, o medo de te educar, de te ajudar a tomar decisões ou de aceitar as tuas decisões, fez-me afastar de ti. Ser pai deveria ter sido tão natural como respirar mas, pouco a pouco, com o acumular dos erros e dos desencontros, essa alegria imensa que vivi quando a tua mãe me disse que estava grávida de ti, foi-se transformando num sufoco, numa culpa, na minha maior culpa! Não imaginas a dor que tenho sentido durante todos estes anos…
Filho – Não sejas tão cruel contigo, tudo o que tenho, devo-to a ti! Se te censuras pelo que me deste, é a mim que censuras pelo que sou. E não creio que seja assim tão mau, pois não?
Ambos sorriram. A centelha de uma nova vida parecia ter transformar por completo um percurso tumultuoso, dando-lhes uma nova esperança, a de se amarem sem medo, no pouco tempo que lhes restava.
Pai – Eu errei muito, Pedro. E o que me pesa mais na consciência é que eu tive sempre essa percepção e nunca fiz nada para mudar o rumo das coisas.
Filho – Sabes, tu tens uma grande vantagem sobre mim, tu já tiveste a minha idade e já estiveste dos dois lados, e isso, embora eu nunca o tenha admitido, conta muito a teu favor, dá-te autoridade para me fazeres ver para além! Até parece que não sabes o que fazias quando tinhas a minha idade, quando eras simplesmente “filho”!?
Pai – Por saber é que me pesa a consciência. A irreverência pode fazer-nos genuínos mas leva-nos muitas vezes a não medir os actos ou as palavras. O que nem sempre é mau. Mau foi eu não ter tido a capacidade para perceber que esse também foi o meu caminho, é o teu caminho, e será o caminho do teu filho, do meu neto… vou ser avô… acho que ainda nem estou bem a acreditar. Não imaginas a alegria que hoje me deste!
Uma vez mais a ironia das circunstâncias parecia pairar sobre eles, transformando-os em marionetas manipuladas por um poder tão cruel quanto sublime, um poder que num momento lhes roubava a vida para logo a seguir a restituir com uma força ainda maior. Mas para Pedro, isso não chegava para lhe afastar o sentimento de medo de perder o pai. A revelação da sua paternidade transformara-se ela própria numa dor profunda, a dor de não poder partilhar com o pai, o seu filho. Pedro não conseguiu por isso evitar um profundo olhar de tristeza. Mais do que o desencontro das suas vidas, a ideia que naquele momento mais o atormentava era a de o filho poder nunca vir a conhecer o avô.
Percebendo isso o pai tentou sossega-lo:
Pai – Não fiques assim, Pedro. Vale a pena acreditar que nada foi em vão! Vale a pena viver cada momento, cada segundo, saboreando os filhos, os netos, a vida…
Pedro abraçou novamente o pai.
No dia seguinte pai e filho voltaram ao hospital. O filho caminhava lentamente ao lado do pai, amparando-o com o seu braço. Desta vez fora ele que pedira ao pai para o acompanhar. Os acontecimentos do dia anterior ainda estavam muito presentes nos seus rostos, um misto de alegria e de arrependimento, de esperança e de apreensão. Sabiam que nada podia apagar a doença do pai e a inevitabilidade do diagnóstico do médico. A realidade tinha tido o dom de os aproximar, mas a aproximação trazia-lhes agora a angústia do medo.
Desta vez o elevador não estava vazio, misturavam-se rostos com expressões com rostos indiferentes. O elevador era como a vida, suspenso por cabos, desafiando a força da gravidade.
Chegados ao consultório o pai bateu à porta. Do outro lado ouviu-se uma voz:
- Entre.
Pai – Dá-me licença senhor doutor?
Sempre amparado pelo filho, entraram no consultório mas logo se aperceberam de que o médico não era o mesmo e que por certo se haviam enganado. À sua frente estava sentada uma jovem médica com um rosto tranquilo.
Pai – Desculpe mas, parece que nos enganámos no consultório.
Médica – Como assim?
Filho – Nós procuramos o médico do meu pai.
Médica – Mas, o senhor como se chama?
Pai – Horácio Costa, senhora doutora.
Médica – Não, o senhor de facto tem consulta comigo, tenho aqui a sua ficha, os exames.
Pai – Não estou a perceber. O meu médico é o Dr. Santos…
Médica – Dr. Santos? Mas aqui no serviço não há nenhum Dr. Santos!
Pai – Como assim? Então mas ainda ontem aqui estivemos e o Dr. até me deu conta dos resultados dos exames!?...
Médica – Não, deve haver aqui alguma confusão. Os resultados dos seus exames só hoje de manhã é que ficaram prontos, como é que alguém lhos deu ontem?
Filho – Mas doutora, o médico até disse que o estado do meu pai era muito grave e que lhe restava pouco tempo de vida…
Médica – Grave? Mas o seu pai não tem nada de muito grave, nada que não se possa resolver. Deve haver aqui algum equívoco. Só pode ser um equívoco!
O pai, que por momentos ficara calado, numa fracção de segundos sentiu a percorre-lhe a memória todas as emoções das últimas vinte e quatro horas, como se uma vida inteira desaguasse num único jorro, como se o fio condutor da vida apenas tivesse uma extremidade. Olhando para trás no tempo, conseguia agora perceber com clareza o essencial, como se o mundo deixasse subitamente de ter segredos e sorrindo exclamou:
Pai – Tem razão senhora doutora, tem a razão, tudo não passou de um grande equívoco!...
FIM
Por todas as saudades que tenho, dedico esta pequena história ao meu pai, esperando ter a sorte de um dia experimentar a alegria de ser avô. Pelo menos a acreditar nos relatos dos que o são.
A quem tem a paciência de me ler, as minhas desculpas pela demora e pela falta de persistência. Esse é talvez um dos meus maiores defeitos.
Posted by Filipe Gomes at 22:11 0 comments
12.27.2008
(f) Ficção
(continuação)
Com o sentimento comum de quem queria abandonar aquele hospital, transformado súbita e simultaneamente numa sala de audiências e no cárcere da angústia provocada pela sentença pronunciada pelo médico, o mais depressa possível, pai e filho entraram no elevador. O filho questionou o pai enquanto tentava localizar o botão que lhes desse acesso à saída.
Filho – Já não me lembro, a saída é no zero ou no menos um?
Pai – É no menos um. Irónico, não é?
O filho lançou ao pai um olhar de interrogação.
Pai – Ter de descer tão baixo para encontrar a saída...
O elevador começou a descer. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Uma vez mais os olhares não se cruzaram, o medo de se encararem tolhia-lhes a vontade imensa de se abraçarem. Sem o exteriorizarem ambos sentiam culpa e remorsos. Mas apenas procuravam, a todo custo, que as lágrimas não denunciassem a fragilidade daquele momento, um turbilhão de pensamentos e sentimentos que não lhes permitiam qualquer espaço para alguma lucidez.
Subitamente, entre o quarto e o terceiro andares, o elevador estremeceu com brusquidão e parou.
Pai – O que foi isto?
Filho – Foi a porcaria do elevador que deve ter encravado. Só faltava mais esta!... E eu com tanta coisa para fazer.
Pai – Eu já não posso dizer o mesmo…
Com indisfarçável transtorno o filho percebeu que as palavras que lhe saíam da boca não tinham qualquer sentido para quem percebia pela primeira vez que o efémero é a mais constante e imediata condição da vida.
Desesperado começou a bater nos botões gritando pelo intercomunicador:
Filho – Está aí alguém? Está aí alguém? Estamos fechados no elevador! Ajudem-nos!
A resposta foi o silêncio, do outro lado não se ouvia mais do que um pequeno ruído quase imperceptível. Permaneceram imóveis virados para a porta, não ousando sequer olhar-se nos olhos. Numa nova tentativa o filho insistiu, desta vez mais alto, como se o volume da voz fosse determinante para serem socorridos.
Filho – Está aí alguém que nos possa tirar daqui? Estamos fechados no elevador! Ajudem-nos! Ajudem-nos, por favor!
De novo, foi o silêncio a tomar conta do elevador. Pai e filho continuavam virados para a porta como se esperassem que esta se fosse subitamente abrir e transpondo-a se pudessem libertar daquele pesadelo. O medo de se enfrentarem olhos nos olhos misturava-se e confundia-se com a sensação de impotência de enfrentar a realidade. Pela primeira vez não tinham como fugir um do outro.
Ao fim de algum tempo o pai interrompeu o silêncio.
Pai – Foi a primeira vez que te ouvi pedir ajuda.
Filho – Se calhar foi porque nunca paraste para me ouvir. Afinal estavas sempre cheio de trabalho.
Pai – Estava cheio de trabalho para te dar aquilo que nunca tive. Uma vez mais sou o culpado de tudo. Essa tua resposta era mais que previsível, sais à tua mãe.
Filho – Não comeces. Se não fosse a minha mãe não estaria aqui neste momento.
Pai – Tiveste pena de mim, foi?
Filho – Apenas acedi ao pedido da mãe.
Pai – Acedeste ao pedido da mãe… vocês são todos iguais! Se fosse eu que te pedisse…
Filho – Mas tu alguma vez me pediste alguma coisa?
A discussão começou a subir de tom. O pai virou-se para o filho e puxou-o pelo ombro obrigando-o a olharem-se de frente.
Pai – E tu alguma vez me ouviste? Alguma vez deste importância aos conselhos que te dei? Alguma vez fizeste aquilo que te disse? Tu sempre tiveste a mania que conseguias tudo sozinho. Tu nunca passaste dum garoto mimado que sempre teve tudo sem fazer nada por isso, sem merecer, tu não sabes o que é a vida! Eu sempre soube o que era melhor para ti!
Filho – Quem disse? Quem disse que eu queria tirar uma porcaria dum curso? Quem disse que eu queria passar o resto da vida a usar fato e gravata? Quem disse que eu queria perder o meu tempo em reuniões com clientes, a fazer orçamentos, a correr dum lado para o outro? Foste tu que me obrigaste a ser o que eu não quero! A ter esta vida de merda só para tu dizeres que tens um filho engenheiro! Tu nunca quiseste o melhor para mim, tu sempre quiseste o que achavas que era melhor para mim.
Pai – E o que querias, diz lá? Passar o resto da vidinha com o papá a sustentar-te porque te julgavas um artista? Querias viver dos rabiscos, era? Nunca vi ninguém a comer sem trabalhar. Os únicos pintores que eu conheço que vivem do seu trabalho são os que pitam paredes e prédios e o raio que os parta!
Filho – Vês como és mesquinho, vês? O dinheiro, sempre o dinheiro!
Pai – O dinheiro não, uma vida digna, de trabalho! Tu sabes lá o que eu sofri para manter um casamento que te desse uma família normal! Mas o que é que tu sabes dos sacrifícios que fiz toda a vida para te dar o melhor?
Filho – O melhor que eu não queria, nem pedi?
Pai – Tudo o que eu te dei foi para teu bem!
Filho – Deixa de ser hipócrita, eu não pedi para nascer!
Pai – Era minha obrigação dar-te uma educação decente, princípios. Tu não sabes o que é ser pai…
Filho – Chamas princípios a obrigar-me a fazer o que não queria?
Pai – Tu tens um grande problema, não consegues ir além do teu umbigo. Escuta lá, o que é que tu deste para mereceres o que tens?
Filho – E tu, o que é que me deste para me exigires alguma coisa? Estavas sempre ausente, nunca podias!
Pai – Cala-te, não me faltes ao respeito que ainda sou teu pai!
Filho – És meu pai, mas não és meu dono!
Instintivamente o pai levantou a mão como se lhe fosse bater.
Pai – Cala-te! Cala-te! – gritou.
O filho não contendo as lágrimas fez-lhe frente levantando a voz.
Filho – Vá bate-me, bate-me!
Como se alguém tivesse por momentos parado um filme, ficaram estáticos, mantendo as posições a que o calor da discussão os levara – o pai de mão levantada, pronto para lhe dar uma palmada, e o filho, de cabeça bem levantada, hirto, desafiador, olhando-se olhos nos olhos. Era a primeira vez que tal acontecia em muitos anos - olharem-se olhos nos olhos. Mas mais do que raiva, o que se podia adivinhar naquela troca de olhares, era ressentimento e muita amargura.
(continua)
Posted by Filipe Gomes at 17:05 2 comments
12.13.2008
(f) Ficção
Como dois desconhecidos, pai e filho, entraram no elevador vazio do hospital. O pai demonstrava claras dificuldades em caminhar mas rejeitaria qualquer ajuda. Se lhe fosse oferecida... O orgulho de ambos nunca permitiria que tal acontecesse. Nunca houvera cumplicidade entre eles, as conversas reduziam-se sempre a meras palavras de circunstância que poderiam ser trocadas por quaisquer dois estranhos.
Filho - Em que andar é que tens a consulta?
Pai - No oitavo.
A porta fechou-se, o velho elevador estremeceu e iniciou a marcha. Os rostos fechados deixavam adivinhar o medo de por momentos serem obrigados a partilhar o mesmo espaço. Estavam presos num cubo em ascensão e cada um perscrutava de forma patética o exíguo espaço, evitando por tudo que os olhares se cruzassem. Durante quase toda a subida mantiveram-se em silêncio. Já próximo do sétimo andar o pai perguntou indiferente:
Pai - Como vai o teu trabalho?
Filho - Vai bem... Chegámos!
A porta abriu-se, transpuseram um pequeno hall e entraram na sala de espera. Ao fundo, ao longo dum corredor vazio alinhavam-se os gabinetes médicos de ambos os lados. Dirigiram-se para a terceira porta à esquerda. O pai caminhava com dificuldade, adivinhando-se medo no seu olhar semi serrado. O filho, visivelmente embaraçado, deteve-se:
Filho - Espero-te aqui.
Pai - Gostava que me acompanhasses.
Filho - Para quê?
Pai - Tu é que sabes...
O silêncio que se seguiu, apesar duma ínfima fracção de tempo, abateu-se sobre eles como um pesado fardo que tivessem de carregar para toda a vida. Nunca um sim do filho havia sido tão desejado pelo pai, sem que contudo o demonstrasse ou sequer o admitisse. Nunca o filho tivera tanta vontade de responder “sim”, sem que contudo o quisesse admitir.
Filho - Está bem, mas...
As últimas palavras perderam-se no som seco da mão trémula do pai batendo na porta creme do consultório. Do outro lado uma voz respondeu:
Médico - Entre!
Pai - Dá licença doutor?
As apresentações foram breves e circunstanciais.
Pai - Como está doutor? Este é o meu filho Pedro.
Médico - Sentem-se, por favor.
Filho - O meu pai é que insistiu para que o acompanhasse...
Médico - E fez muito bem. Eu teria feito o mesmo. Se há coisa da qual eu não prescindo é da companhia dos filhos. Agora, infelizmente, cada vez menos. Já não vivem connosco e cada qual tem a sua vida. Quando eram pequenos, eram terríveis, não paravam quietos, cansava vê-los cheios de energia. Nessa altura só desejava que crescessem, mas agora tenho saudades. O tempo passa demasiado depressa e sinto muitas vezes a falta deles.
A resposta do médico deixou-os ainda mais embaraçados. Se havia coisa que nunca tinham admitido era a companhia um do outro, embora a desejassem muito.
Médico - Então e como é que se tem sentido?
Pai - Vou andando doutor.
Médico - Já temos os resultados dos exames...
Na pausa que se seguiu, o médico tentava ganhar tempo, procurava encontrar as palavras certas para lhe comunicar os resultados.
Médico - Bom, a situação é um bocado grave. É mesmo complicada, diria...
Pai - Quero a verdade doutor!
Médico - Pois eu sei que sim, todos queremos a verdade mas, sabe que há coisas que devem ser entendidas, que têm de ser entendidas, é o primeiro passo para sentirmos coragem e confiança em nós próprios. Para ultrapassarmos as dificuldades primeiro temos de ter consciência da realidade e por vezes a realidade é uma coisa que nos custa muito a encarar. Sabe que a natureza humana é mesmo assim, somos sempre tentados a viver ignorando aquilo que mais tememos, o que nos possa acontecer, convencidos de que isso fará com que tudo o que não desejamos nos passe ao lado. Só que um dia chega a nossa vez de lidar com os factos.
Pai - Assusta-me mais a dor do que a morte doutor.
Médico – A morte é todos os dias. Quando nascemos entregam-nos logo o passaporte que tratamos de esconder no fundo duma gaveta. Mas é bom não esquecer que a viajem só termina no fim e por vezes, ofuscados pelo acessório, percorremos quilómetros e quilómetros sem percebermos o que realmente importa.
Pai - Comigo as coisas não funcionam assim, sou um homem pragmático doutor. Só dou importância ao que interessa.
Médico – Vejo que tem muitas certezas... e o que é que interessa verdadeiramente? Sabe-me dizer com rigor?
Pai – Não tenho certezas, é a minha maneira de ser. A vida moldou-me assim.
Médico – Sim, mas nós também moldamos a vida e há coisas que apenas conseguimos resolver na nossa cabeça se nos libertarmos duma espécie de casulo que construímos à nossa volta, porque estamos convencidos de que isso nos torna imunes a tudo.
Pai – Eu vim aqui para me dizer a verdade, só isso. Apenas quero saber o que tenho.
Médico - Bom, a verdade é que o seu estado é muito grave e... sabe para mim também não é fácil...
Visivelmente perturbado o pai interrompeu o médico:
Pai - Quanto tempo de vida me resta, doutor?
Pela primeira vez Pedro também se mostrou perturbado. Não se tinha apercebido da gravidade da situação.
Médico – O mais importante é a esperança e a confiança! Acreditarmos em nós!
Pai - Quanto tempo doutor?
Médico – Talvez pouco. É difícil prever.
O filho experimentou uma sensação de impotência e revolta que o levou inadvertidamente a interromper o seu silêncio, como se uma mola o impelisse a gritar o seu desespero face à sentença ditada pelo médico.
Filho - Mas porquê o meu pai doutor?
Não conseguindo esconder um esgar de espanto, o pai olha-o nos olhos de forma irónica.
Pai - Ora... antes eu que tu, sou mais velho e é a ordem natural das coisas, não é doutor?
Virando-se para o filho o médico tentou em vão confortá-lo.
Médico - Sabe que estas coisas custam muito, sobretudo quando acontecem com aqueles que mais amamos.
É preciso não esquecer que a medicina evolui muito rapidamente e todos os dias são dados novos passos na descoberta de tratamentos mais eficazes, que proporcionam maior qualidade de vida...
O pai interrompeu-o novamente:
Pai - Doutor, eu já percebi. Preciso de ficar só. Peço-lhe que retomemos a consulta amanhã. Se estiver vivo, claro! – gracejou.
Ninguém sorriu.
Médico - Está bem. Amanhã falamos. Peço-lhe apenas que creia que há sempre alguma coisa que depende de nós, há sempre uma esperança. A natureza humana, para o bem e para o mal, reserva-nos sempre surpresas. A nossa capacidade de reacção é de todo desconhecida e revela-se para além da nossa compreensão, mesmos nos momentos em julgamos que está tudo perdido.
Sem mais palavras levantaram-se, despediram-se do médico e saíram. O percurso até ao elevador foi feito em silêncio. Um silêncio feito de medo e de raiva, cada qual absorto nos seus pensamentos, sem repararam sequer que caminhavam lado a lado.
(continua)
Posted by Filipe Gomes at 15:19 1 comments
10.25.2008
(e) Escurinha
Às voltas com a letra “E” dou de caras com esta magnífica “Escurinha” cantada com a alma e o encanto de Maria João. Como só ela sente e sabe. Uma delícia.
Posted by Filipe Gomes at 19:14 2 comments
9.06.2008
(post it) IN JUSTIÇA
A frase é demasiado batida mas continua a ser absolutamente verdadeira, o que se passa no futebol é o espelho daquilo que se passa na sociedade.
Com o regresso da primeira liga de futebol regressaram também os “casos”. No último fim de semana o central do Benfica, Luisão, agrediu sem bola um colega da equipa adversária. Como o árbitro nada reportou no seu relatório, o jogador foi objecto de um “processo sumaríssimo”, com base nas imagens televisivas. O clube, o primeiro e maior prejudicado com a atitude inqualificável do seu atleta (leia-se “assalariado”), em vez de o punir exemplarmente, dando assim um sinal de intolerância para com atitudes violentas e anti-desportivas, e de forma a evitar que no futuro a cena se volte a repetir (com este ou com outro jogador), optou por apresentar recurso, uma mera manobra dilatória tendo em vista a utilização do jogador no próximo Benfica – Sporting.
O Estado é igual. Depois de ter sido condenado por erro grosseiro na aplicação da prisão preventiva a Paulo Pedroso, vai recorrer. Foi assim no caso do Aquaparque e em tantos outros.
É por estas e por outras que eu tenho cada mais a convicção de que Estado e clubes não são pessoas de bem. Talvez o problema sejam os maus políticos e os maus dirigentes. Talvez.
Com o regresso da primeira liga de futebol regressaram também os “casos”. No último fim de semana o central do Benfica, Luisão, agrediu sem bola um colega da equipa adversária. Como o árbitro nada reportou no seu relatório, o jogador foi objecto de um “processo sumaríssimo”, com base nas imagens televisivas. O clube, o primeiro e maior prejudicado com a atitude inqualificável do seu atleta (leia-se “assalariado”), em vez de o punir exemplarmente, dando assim um sinal de intolerância para com atitudes violentas e anti-desportivas, e de forma a evitar que no futuro a cena se volte a repetir (com este ou com outro jogador), optou por apresentar recurso, uma mera manobra dilatória tendo em vista a utilização do jogador no próximo Benfica – Sporting.
O Estado é igual. Depois de ter sido condenado por erro grosseiro na aplicação da prisão preventiva a Paulo Pedroso, vai recorrer. Foi assim no caso do Aquaparque e em tantos outros.
É por estas e por outras que eu tenho cada mais a convicção de que Estado e clubes não são pessoas de bem. Talvez o problema sejam os maus políticos e os maus dirigentes. Talvez.
Posted by Filipe Gomes at 21:42 1 comments
Subscrever:
Mensagens (Atom)
