3.07.2007

(r) Ricardo Reis




Num tempo em que não há tempo, apenas peço silêncio e sossego, oito minutos para a música de Pat Matheny & Charlie Haden e para as palavras intemporais de Ricardo Reis. Palavras ditas no tempo e no modo certos, palavras que nos trazem de volta ao que realmente importa, que recentram o discurso no verbo. Não é mais um momento pretencioso de poesia e de música calma, é uma angústia sentida, uma saudade do futuro, um dia que se esfuma e uma noite que se ergue sobre as cinzas de mais uma jornada de trabalho. Cada coisa... cada coisa... a chuva parou, a lua aparece, e tu, onde estás?






Cada Coisa


Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol)

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

1 comentário:

Zé Lérias disse...

Um abraço e continuação de boa semana de trabalho e... algum divertimento.