4.25.2007

Liberdade

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LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,

Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....


Fernando Pessoa

Às vezes tenho a sensação de não viver no tempo certo, ansiar pela Liberdade parece um parodoxo depois de Abril. O ar que hoje respiramos não é o mesmo, apesar da facilidade com que o fazemos. Nem damos conta. A Liberdade porém, nunca será uma tarefa acabada. Talvez por isso eu sinta esta inquietação.

1 comentário:

Marinhoto disse...

Tens toda a razão Filipe.
A Liberdade é um pouco como saúde – são bens que só damos conta deles quando deles somos privados.
Quanto à Liberdade, esta também tem de ser vigiada para que a possamos manter, posto que, a cada passo, sempre haverá alguém que, torcendo as coisas a seu modo, tudo fará para a minar e para a adaptar aos seus próprios conceitos, moldando-a de acordo com os seus (quantas vezes inconfessados!) interesses.
Por isso mesmo, estou de acordo contigo quando dizes que ‘a Liberdade nunca é uma tarefa acabada’.

Mas a Liberdade impõe regras. Embora sendo uma frase feita, é bom que não percamos de vista que a nossa Liberdade acaba quando começa a dos outros e, infelizmente, há para aí muita gentinha que esquece, por completo, esta regra fundamental da vivência não só da Liberdade, mas também da outra palavra que lhe anda agarrada – a Democracia!

Assim, amigo, como homem avisado que és, é natural que te sintas inquieto!... Sentes-te tu e sentimo-nos todos nós quantos assistimos aos atropelos e aos desmandos que, diária e constantemente, nos passam perante os olhos!