Antigamente… não era melhor nem pior, era diferente. A rua também era diferente. Era o local das nossas brincadeiras, era o ponto de encontro da garinada, dos putos. Havia pouco trânsito, não havia tanta preocupação com a segurança, “eram outros tempos”. A rua era o quintal entre as casas. E se na Marinha, vila industrial já com algum movimento e com gente que chegava de fora a coisa não era tão pacífica, na terra da avó Laura onde ia passar férias, a rua era nossa. Barrigadas de rua, de manhã à noitinha. Porque numa aldeia como o Alqueidão da Serra, a pacatez da sua rotina, permitia tomar a rua só para nós. A rua é nossa! Nossa! Jogar à bola, correr, brincar, sem parar, tudo nos era permitido. A equipa alinhada antes do desafio, como profissionais da bola e amadores da rua, olhares fixos no kodac: "olhó passarinho, 1, 2, 3, já está..." o diafragma abre e fecha fixando na película, para a posteridade, a pose altiva dos atletas; amadores da rua, profissionais da brincadeira.
Hoje, há parques, jardins, locais onde se pode brincar com outras condições, com outros equipamentos e com outra segurança. É diferente.
O passado já foi, o presente já era e o futuro já espreita. Não é melhor nem pior, é diferente…

Luis de Camões escreveu e José Mário Branco musicou e cantou,
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
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Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
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O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
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E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.