3.13.2006

(r) Rua

Antigamente… não era melhor nem pior, era diferente. A rua também era diferente. Era o local das nossas brincadeiras, era o ponto de encontro da garinada, dos putos. Havia pouco trânsito, não havia tanta preocupação com a segurança, “eram outros tempos”. A rua era o quintal entre as casas. E se na Marinha, vila industrial já com algum movimento e com gente que chegava de fora a coisa não era tão pacífica, na terra da avó Laura onde ia passar férias, a rua era nossa. Barrigadas de rua, de manhã à noitinha. Porque numa aldeia como o Alqueidão da Serra, a pacatez da sua rotina, permitia tomar a rua só para nós. A rua é nossa! Nossa! Jogar à bola, correr, brincar, sem parar, tudo nos era permitido. A equipa alinhada antes do desafio, como profissionais da bola e amadores da rua, olhares fixos no kodac: "olhó passarinho, 1, 2, 3, já está..." o diafragma abre e fecha fixando na película, para a posteridade, a pose altiva dos atletas; amadores da rua, profissionais da brincadeira.
Hoje, há parques, jardins, locais onde se pode brincar com outras condições, com outros equipamentos e com outra segurança. É diferente.
O passado já foi, o presente já era e o futuro já espreita. Não é melhor nem pior, é diferente…



Luis de Camões escreveu e José Mário Branco musicou e cantou,

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

4 comentários:

Marinhoto disse...

Felipe, mais uma vez gostei do teu 'post'. De resto, dizer isso e no que respeita ao que escreves, é já, quase, um lugar-comum...
É certo que sou um pouco mais velho do que tu, mas também eu me recordo de jogar à bola na estrada que, nesse tempo e em frente à casa dos meus pais, era (e foi durante muitos anos) de simples terra batida... e olha que isso não se passava na tranquila Alqueidão da tua infância!. Não, isso acontecia aqui mesmo nesta Marinha Grande onde tu e eu vivemos...

Se eram melhores esses tempos? Não sei... mas de uma coisa tenho eu a certeza. Esses eram tempos de muitíssimo maior despreocupação, de maior e de mais fraterno convívio. E, sobretudo, eram tempos de uma muito maior partilha!

Por aqui já vês o quanto gostei do teu 'post'... ele levou-me também a recordar tempos que foram, para mim, de grande felicidade.
Um abraço e obrigado

Marinhoto

Zé Lérias disse...

que saudades eu tenho dos trambulhões que dei(até conseguir equilibrar-me - ensaiando semi-pedaladas) em bicicleta de adulto, e voltar a cair na estrada desempedrada, mais além... por não saber onde estavam os travões...

Será dos trambulhões e dessa bicicleta que tenho saudades, ou de outra coisa? Já não sei...

cumprimentos ao seu pessoal

Jeremias (o fora da lei) disse...

“Se morreres antes de mim, pergunta se podes levar um amigo…”
(Stone Temple Pilots)

A “Rua”... vivida num passado… transforma em liberdade, os sinais que nos transportam para a verdadeira razão de viver, com o sentido da nossa existência… a verdadeira amizade.
Esta “Rua” de que falas, faz-nos percorrer a nossa forma mais pura. O nosso Ser mais belo.
Com Ela recordamos o início de tudo,
Crescemos juntos,
Juntos se fizemos adultos…
Mas juntos não perdemos o mais importante dessa “Rua”… continuar-mos a meninice da nossa amizade.

Mariana-Papoila disse...

O Passado é história;
O Futuro è mistério!

Isto é o que faz já não caminharmos para novos.
Lembramo-nos de muita coisa!.
Até nos lembramos de brincar no meio da rua, o que agora até parece ficção.
Somos uns felizardos........
Beijocas