11.03.2006

(j) José Carlos Ary dos Santos

.
.

.




Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
a morte é branda e letal
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


José Carlos Ary dos Santos



Será que ainda nos lembrávamos dele? Há coisas que nunca se esquecem...

1 comentário:

Marinhoto disse...

Caro Filipe,
Foi bom teres trazido à nossa lembrança o José Carlos Ary dos Santos.
Tenho de confessar-te que a sua dimensão como poeta sempre me causou uma enorme admiração.
Mas não só isso. Eu sempre admirei, muito, a genuína irreverência que ele punha em tudo quanto dizia e quanto fazia!
Não admira, pois, que ele fosse quase adorado por uns e olhado de soslaio (e até inveja), por outros...
O José Carlos Ary dos Santos foi verdadeiramente único no seu tempo e deixou uma lacuna jamais preenchida!

Certo dia, em Lisboa, tive o grande prazer de almoçar no mesmo restaurante onde ele, então, almoçou com amigos. Entramos praticamente ao mesmo tempo e ocupamos mesas contíguas... Aquele almoço foi, para mim, um almoço inesquecível, pois tive ocasião de testemunhar quanto brilho irradiava a sua personalidade, própria de uma mente brilhante que a todos contagiava!...

Obrigado por me trazeres essa lembrança...